Retorno seguro aos rios amazônicos

Em março, aconteceu reintrodução histórica de peixes-boida Amazônia na natureza. Para garantir o sucesso dessa e de outras solturas, projeto apoiado pela Fundação O Boticário promove educação ambiental junto a comunidades ribeirinhas.

Em março deste ano, aconteceu pela primeira vez a reintrodução de peixes-boi da Amazônia (Trichechus inunguis) criados em cativeiro à natureza. Esses animais chegaram ao Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) ainda filhotes e permaneceram lá por mais de 10 anos, até a soltura no rio Cuieiras. 

Para garantir que esta soltura e as próximas tenham resultado efetivo na proteção e proliferação da espécie, a Associação Amigos do Peixe-Boi da Amazônia (AMPA) desenvolve, com o apoio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, um projeto de educação ambiental nas comunidades ribeirinhas na área de reintrodução dos indivíduos. 

O peixe-boi da Amazônia é uma espécie endêmica dos rios da Amazônia, considerada vulnerável de extinção pelo Ministério do Meio Ambiente. A cultura de caça durante gerações causou uma diminuição preocupante no número de indivíduos na natureza. Na última década, o INPA recebeu cerca de 70 filhotes de peixes-boi; em sua maioria órfãos lactentes resgatados, que chegaram ao laboratório extremamente debilitados, requerendo intensos cuidados. Hoje, o INPA abriga 35 deles, sendo oito adultos, 16 juvenis e onze filhotes.

Os dois animais que retornaram aos rios no mês de março chegaram ao laboratório com três e seis meses de vida, portanto, cresceram acostumados à presença do homem. A chefe do LMA/INPA e presidente da AMPA, Vera da Silva, explica que o peixe-boi da Amazônia tem como defesa uma audição apurada. “Quando os indivíduos selvagens percebem a presença humana, mergulham e se escondem. Os animais que foram criados em cativeiro são extremamente dóceis e estão acostumados com o ser humano, então, em vez de se esconderem, vão em busca do homem, ficando mais vulneráveis à caça”. 

Um trabalho de conscientização da população é fundamental em situações como essa. “Não podemos criar os animais por anos em cativeiro, devolvê-los à natureza para terminarem na panela”, protesta a pesquisadora. “Existe um comércio ilegal e, por causa da tradição de comer peixe-boi, há pessoas que moram no interior do estado do Amazonas e chegam a encomendar para familiares da capital”, completa.

O projeto de educação ambiental desenvolve diversas atividades para crianças e adultos, como gincanas, atividades didáticas com alunos e professores, palestras, exibição de documentários, dentre outras; já foram feitas várias visitas às comunidades. Agora, os pesquisadores estão distribuindo uma cartilha que poderá alcançar um número maior de pessoas, além de instalarem placas que identificam e reforçam a idéia de uma “comunidade amiga do peixe-boi”.

Vera lembra que essa é uma espécie símbolo para a Amazônia. “Se nós, brasileiros, não conseguirmos proteger o peixe-boi, tenho certeza que a Floresta Amazônica também não será; essa espécie tem uma importância bastante grande para o ecossistema da região”.


A soltura


O local para a soltura dos animais foi escolhido por meio de uma pesquisa realizada pelo INPA em parceria com a AMPA, iniciada em 2005, também, com o apoio da Fundação O Boticário.

Os animais saíram de Manaus (cidade-sede do laboratório) no dia 1º de março e seguiram de barco para a comunidade de São Sebastião, às margens do rio Cuieiras, onde permaneceram em um tanque de rede em ambiente natural por uma semana. Antes de lançá-los ao rio, os animais foram marcados com seus nomes e foram instalados transmissores na calda de cada animal, para poder rastreá-los por meio de sinais de rádio. Vera conta que eles estranharam no início, principalmente pela presença de botos e outros animais. “Era esta a idéia: eles se adaptarem ao ambiente natural, enquanto nós, pesquisadores, podíamos verificar se os transmissores funcionavam bem”.

Após a retirada da rede, no dia 8 de março, os animais não perceberam que não havia mais demarcação, e permaneceram no local por cerca de dez minutos. Até que um deles se deslocou quase 5km sozinho, retornando depois, onde encontrou o outro animal. Agora, seguem juntos e percorrem uma média de 1,5 a 2km por dia.

O monitoramento é importante para poder se conhecer mais sobre a espécie. Por exemplo, se o animal permanece por um longo período em uma região, pode-se estudar o hábitat para analisar as características do local. “Ainda não se sabe nada sobre a estrutura social do peixe-boi da Amazônia e como ele se comporta na natureza. Se soltarmos um grupo maior, saberemos como vão se dispersar: em pares, em grupos ou sozinhos; e também quanto tempo se mantém unidos”, completa Vera.

A próxima reintrodução está prevista para dezembro de 2008 ou janeiro de 2009. Os pesquisadores ainda não sabem quantos animais serão soltos, porque dependem de financiamento para custear as pesquisas e implementação do projeto. “Por isso parcerias como esta, com a Fundação O Boticário, são muito importantes, pois tornam possível que projetos inéditos, como este, tenham andamento”, finaliza a pesquisadora.

Criados em cativeiro

Em outubro de 2007, dois exemplares de peixe-boi da Amazônia foram libertados no Lago Anumã, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém (PA), após três anos de cuidados pela equipe do Projeto Peixe-boi. As reintroduções de 2007 e de março deste ano são de extrema importância para a ciência e para a conservação da espécie. Mas, segundo Vera, há diferenças entre elas. “O que torna a reintrodução deste ano histórica é que os animais soltos em março foram criados em cativeiro desde filhotes, enquanto os de Santarém já chegaram maiores ao local de reabilitação. Além disso, os de Santarém foram liberados em um lago – onde ainda se encontram – sem acesso livre ao rio que é seu hábitat natural; no período de cheia deste ano, provavelmente terão acesso ao rio. Já os animais do Amazonas foram soltos diretamente no rio Cuieiras”, afirma Vera.

Este texto foi produzido pela Assessoria de Comunicação da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, um dos patrocinadores deste projeto.