Boto-Vermelho

Boto-Vermelho (Inia geoffrensis)

O boto-vermelho, também conhecido como boto ou boto cor-de-rosa, é o maior dos golfinhos de água doce do mundo, chegando até 2,5 metros de comprimento e 200 Kg de peso. Sua coloração varia de cinza claro, nos filhotes e jovens, a rosa brilhante nos adultos. Os machos são bem maiores e mais rosados do que as fêmeas. Eles são golfinhos muito diferentes: tem olhos bem pequenos, nadadeira dorsal baixa e comprida e nadadeiras peitorais muito grandes. O boto é muito flexível, podendo mexer o pescoço de um lado para o outro e mover as nadadeiras peitorais para frente e para atrás. Por serem extremamente adaptados ao ambiente amazônico, os botos têm o sistema de ecolocalização bem desenvolvido e seu “melão”na cabeça é avantajado. Essa característica é importante para se mover na floresta alagada e procurar presas nas águas escuras dos rios amazônicos.

Os botos vivem exclusivamente nos rios da bacia Amazônica e Orinoco. O boto I. geoffrensis é o mais amplamente distribuído e está presente em quase toda a bacia. O boto-da-Bolívia I. boliviensis habita a sub-bacia do Rio Madeira, sendo o boto registrado na Bolívia, mas encontrado também no Brasil até o município de Borba/AM. Já o recém-descoberto boto-do-Araguaia Inia araguaiaensis é o único golfinho exclusivo do Brasil e endêmico da sub-bacia Araguaia-Tocantins.

Os botos possuem dois tipos de dentes, permitindo que a espécie se alimente de uma grande variedade de peixes, inclusive aqueles peixes com carapaças duras e resistentes. Estima-se que o boto consuma até 2,5% de seu peso corporal em peixes por dia, que seria algo em torno de 5kg para os grandes machos.

Por conta das pesquisas do Projeto Boto, sabemos que as fêmeas atingem a maturidade sexual por volta dos 10 anos e a gestação dura por volta de 12 a 13 meses, quando elas darão a luz a apenas um filhote e vão cuidar dele por cerca de três anos. Os nascimentos podem acontecer o ano todo, mas o pico de nascimentos ocorre na estação seca, período com maior oferta de alimento.

Os botos são animais solitários, mas podem viver em os grupos de 2 a 4 animais. Grupos maiores são registrados quando encontram um cardume e formam associações temporárias para se alimentar, mas a única associação verdadeira se dá entre a mãe e o filhote.

Botos são animais de vida longa, podendo chegar a 45 anos. Uma das fêmeas registradas pelo Projeto Boto tinha mais de 35 anos quando deixou de ser encontrada por nossa equipe em 2018.

Quantos botos existem na natureza é uma pergunta muito difícil de responder, pois eles são amplamente distribuídos, utilizam o ambiente de forma diferente dependendo da época do ano e têm densidades muito variáveis de acordo com a cor da água do rio em que se encontram. Assim, as densidades podem ser tão baixas quanto 1 boto/km2 em rios estreitos do Equador, quanto altíssimas, de 10 boto/km2 no rio Purus, Amazônia Central brasileira.

Os botos, muito bem adaptados a região amazônica, usam seu ambiente de acordo com o ciclo hidrológico dos rios. Durante a época de águas altas ou “cheia”, os botos podem explorar a floresta alagada buscando suas presas, enquanto na época de águas baixas ou “seca”, será mais comum observá-los nas confluências dos rios e igarapés, onde também se concentram mais peixes. Botos preferem viver mais próximos a margem do rio, sendo raro encontrá-los no canal dos rios mais largos. Não sabemos ainda o tamanho de sua área de vida, mas eles podem ser residentes e permanecer por anos em áreas de menos de 100km2 bem como se deslocar mais de 50 km em um único dia. Os botos também parecem ter preferências de hábitat de acordo com o sexo: as fêmeas e seus filhotes preferem ficar nos complexos de lagos e pequenos tributários, enquanto os machos preferem os rios principais.

Quando comparados aos golfinhos existentes no Mundo, os botos são animais interessantes pois apresentam características muito diferentes para viver no ambiente amazônico. Hoje em dia, com as novas técnicas de genética, temos descoberto que o que se pensou ser uma única espécie em toda Amazônia, Inia geoffrensis. Na verdade, são ao menos três espécies (temos também Inia boliviensis e Inia araguaiaensis).

A figura do boto é muito identificada no folclore Amazônico. A lenda do boto festeiro, que se transforma em homem muito bonito para dançar nas festas ribeirinhas é fascinante – tanto sendo enaltecida como música, manifestações culturais e animações, quanto causando apreensão nos comunitários com medo desse lado mágico do boto.

O que sabemos com certeza é que o boto realmente tem um lado galanteador. Seu marcado dimorfismo sexual e os sinais de briga constante entre os machos são para conquistar as fêmeas e ter o maior número de filhotes possível. Quando encontramos grandes grupos de muitos machos e fêmeas, podemos observar um comportamento muito interessante, chamado display sexual, onde os machos competem entre si levantando e exibindo plantas, pedaços de pau ou argila que encontram pelo rio, tudo para intimidar os outros machos competidores e impressionar e serem escolhidos pelas possíveis parceiras.

O boto está ameaçado principalmente por conta de sua interação negativa com as atividades de pesca. Além de ser capturado acidentalmente e morrer emalhado em redes de pesca, são mortos intencionalmente pelos pescadores devido a seu comportamento de retirar peixes das redes e acabar danificando os apetrechos de pesca. Outra ameaça é a captura direta de boto para uso como isca na pesca da piracatinga. Na região da RDS Mamirauá, declínios populacionais relacionados a essa atividade foram observados. Por conta disso, no Brasil e no Mundo a espécie está listada como ameaçada de extinção na categoria “Em Perigo”, se tornando o mamífero aquático mais ameaçado da Amazônia.