Ordenamento do ecoturismo no baixo rio Negro

O turismo de observação de animais em vida livre vem crescendo. O Amazonas é o sétimo destino do turismo no mundo. A exuberante flora e fauna são os principais atrativos. E quem se destaca nesse turismo verde é o boto-vermelho (Inia geoffrensis), um mamífero aquático endêmico da região amazônica, que está classificado como “Dados Insuficientes” pela Unidade Internacional de Conservação da Natureza – IUCN e aparece no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

O boto-vermelho é símbolo da Amazônia e é protagonista de muitas lendas na região. É um animal dócil e muito curioso. Sua biologia é totalmente adaptada para se deslocar na floresta alagada. Tem uma distribuição ampla nos rios da Amazônia brasileira, boliviana, colombiana, equatoriana e venezuelana.

O turismo com esse animal, nos rios amazônicos, já ocorre há mais de uma década. No entanto, essa atividade não é feita de forma sistematizada. Por isso, o Projeto Ecoturismo Amigo do Boto-vermelho da Amazônia, idealizado pela Associação Amigos do Peixe-boi – Ampa e patrocinado pelo Oi Futuro, tem o objetivo de promover o turismo sustentável, melhorar a renda de uma comunidade ribeirinha, reabilitar e fomentar o bem estar de crianças portadoras de necessidades especiais; além de contribuir com a conservação ambiental, por meio da implantação de uma estrutura flutuante receptiva, denominada “Flutuante Amigos do Boto-vermelho”. A comunidade contemplada, São Thomé, é formada por ribeirinhos, está localizada em Iranduba, município distante de Manaus 180 km. Ela abriga cerca de 50 pessoas, cuja renda vem principalmente da pesca e do turismo. É composta por 14 casas simples, construídas pelos próprios moradores. A Vila possui apenas uma pequena escola, uma Associação de Mulheres que confeccionam artesanatos e uma Associação de Pescadores.

Acredita-se que esse tipo de atividade pode ser uma estratégia de conservação do boto-vermelho, que hoje sofre uma grande pressão pela ocupação humana e nos últimos anos vem sendo caçado indiscriminadamente para ser utilizado como isca na pesca de um peixe chamado piracatinga, que no Brasil é comercializado com o nome de douradinha.

Paralelamente, a AMPA, junto com seus parceiros, pretende desenvolver uma série de estudos de impacto ambiental e comportamental com os botos da região, a fim de estabelecer para o futuro, novos critérios e um novo modelo de turismo sustentável que venha a utilizar os botos-vermelhos como atração principal em suas atividades de ecoturismo.

Há algum tempo, vem se desenvolvendo no Amazonas uma atividade de interação turística com botos-vermelhos Inia geoffrensis na região do baixo Rio Negro. Botos de vida livre são atraídos por alimento para se aproximar e se mostrar para turistas que, encantados, tiram muitas fotografias. A AMPA vem acompanhando essa atividade, que se iniciou com apenas um flutuante na cidade de Novo Airão, AM, copiada pelo hotel Ariaú (não mais em atividade) no tributário de mesmo nome e, hoje, foi expandida para as regiões de Acajatuba e Cachoeira do Castanho, mais próximo a Manaus. A expansão da atividade trouxe problemas: imagens com dezenas de turistas rodeando e tocando os botos eram comuns. Os botos não são animais agressivos, mas são animais selvagens, muito grandes e pesados e tanto pesquisadores quanto donos desses flutuantes começaram a ser preocupar que animais estressados pudessem machucar os turistas. Em 2013, a AMPA começou uma parceria com um dos empreendedores, na região do Acajatuba, para tentar auxiliar a atividade de forma a respeitar os animais, evitar acidentes e promover pesquisas e a conservação do boto-vermelho. No entanto, toda a atividade era muito desordenada, e a falta de fiscalização e controle dificultavam medidas mais efetivas. Em 2015 propostas por uma regulamentação da atividade começaram a surgir e a AMPA reuniu os empreendedores para pensar em conjunto em regras que viabilizassem a atividade ao mesmo tempo que evitaria o estresse aos animais e possíveis acidentes. Também durante todo esse período a AMPA veio promovendo pesquisas que nos ajudassem a discutir, por meio do monitoramento populacional, como esta atividade poderia estar impactando essa espécie tão carismática. Nós realizamos pesquisas genéticas, que revelaram que todos os animais envolvidos com a atividade são machos e não muito aparentados; marcamos 14 indivíduos com marcas criogênicas e outros 22 indivíduos por meio de fotoidentificação para verificar quantidade e movimentação, e estimamos em cerca de 40 indivíduos envolvidos com a atividade; e realizamos contagens no baixo Rio Negro para estimar a abundância da espécie na região. Finalmente, no dia 22 de janeiro de 2018, foi promulgada a Resolução/CEMAAM Nº28, que estabelece diretrizes e procedimentos a serem observados na autorização e desenvolvimento de atividades de interação de baixo impacto que envolva seres humanos e botos-vermelhos no estado do Amazonas. Essa resolução foi considerada uma vitória pela AMPA e também pelos empreendedores da atividade (donos de flutuantes), que agora podem trabalhar com regras muito claras sobre a atividade, como número máximo de turistas e peixe a ser ofertado aos botos, e legalizar seu negócio. Nesse momento, seis dos sete empreendimentos existentes no Amazonas trabalham em conjunto com a AMPA para o estabelecimento de um Plano Técnico para a atividade, onde todas as novas regras serão contempladas e monitoradas. Esse Plano versa sobre plano de informação aos turistas, para que o conhecimento sobre esses fascinantes animais possa se proliferar e auxiliar na conservação da espécie; sobre plano de monitoramento dos animais envolvidos, para que possamos entender os impactos da atividade e outras questões sobre a espécie; e o plano de medidas socioambientais que os empreendedores devem executar, como palestras e visitas guiadas com escolas, eventos de multirão nas comunidades próximas e outras atividade de pesquisa como monitoramento da abundância de botos na região.