A bioacústica vem ampliando a possibilidade de se conhecer as características comportamentais e sociais do peixe-boi na natureza.

Os animais podem utilizar uma variedade de sinais para comunicação. Esses sinais podem ser emitidos de diversas formas: visuais, químicos, elétricos e sonoros. A comunicação é um mecanismo importante para o desenvolvimento de diversas funções do ciclo de vida das espécies, e incluem a atração de parceiros para reprodução, a defesa do território, a proteção contra predadores, cuidados com a prole, deslocamento e informações sobre o ambiente.

Estudos de bioacústica sendo realizado no semicativeiro dos peixes-bois, em Manacapuru/AM. Foto: Acervo AMPA

O peixe-boi da Amazônia é um mamífero aquático que vive em ambientes onde a comunicação visual é bastante limitada, pois a maioria dos rios da bacia amazônica possuem águas turvas. A comunicação química também é limitada, já que na água os componentes químicos se dissipam rapidamente e não facilitam a comunicação nem mesmo a curtas distâncias. De forma contrária, os sinais acústicos possuem ótima capacidade de transmissão em ambientes aquáticos – podem ser utilizados facilmente para comunicação a longas distâncias – e por isso, são o principal meio de comunicação utilizado pelo peixe-boi da Amazônia.

Devido ao ambiente de baixa visibilidade e ao comportamento discreto, a observação destes animais na natureza, é dificil.  Por essa razão muito do que se conhece sobre a espécie resulta de estudos realizados em ambiente controlado (cativeiro) e pouco se sabe sobre seu comportamento na natureza. A bioacústica – estudo da comunicação sonora vem ampliando a possibilidade de se conhecer as características comportamentais e sociais da espécie em natureza, de forma não invasiva e pode ser uma ferramenta usada para o monitoramento destes animais.

Pesquisadores do AMPA / INPA durante captura de botos para coleta de material biológico, marcação, biometria e coleta de outros dados do Projeto Botos do Rio Negro. O projeto foi realizado na comunidade São Thomé – Amazonia – Brasil. Foto: Jonne Roriz/AMPA

Desde 1998 pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos têm realizado pesquisas sobre a comunicação acústica de peixes-bois que vivem em cativeiro. Atualmente, sabe-se que esses animais se comunicam por meio de vocalizações simples, curtas e audíveis. Produzem estalos ou clicks entre suas vocalizações, sem evidências de ecolocalizações – sinais produzidos por golfinhos. As vocalizações podem ser emitidas com no mínimo uma e no máximo quatro notas, são constituídas por harmônicos e a frequência fundamental pode variar de 1,7 a 8 kHz. Os sinais geralmente não ultrapassam meio segundo de duração.

Os peixes-bois são considerados animais com hábitos solitários que demonstram pouca interação com outros indivíduos, a não ser no período reprodutivo quando são avistados grupos grandes de machos buscando o acesso às fêmeas, e durante o período de cuidado parental. A relação entre mães e filhotes, é conhecida como a mais duradoura da espécie, ambos permanecem unidos por um período aproximado de 2 anos. Esses animais utilizam os sinais acústicos como maneira de identificar, reconhecer e localizar indivíduos. Os filhotes vocalizam mais frequentemente que jovens e adultos, fêmeas lactantes vocalizam mais que fêmeas não-lactantes. Essa capacidade demonstra a principal função da comunicação sonora da espécie, que é a coesão entre mãe e filhote. Em estudos realizados com pares de mães e filhotes nascido em cativeiro, observou-se que as vocalizações dos filhotes tendem a se tornar similares as de suas mães com o passar do tempo, especula-se que essa capacidade esteja ligada a questões reprodutivas, por exemplo, evitando a endogamia na espécie. No entanto, ainda há muito a ser estudado para verificar ao certo se essa similaridade é resultado de fatores genéticos ou aprendidos.